sábado, 5 de dezembro de 2009

Querida Elnora,

Hoje joguei no lixo as flores de plástico mofadas que ficavam no vaso sobre a mesa. Lembro do momento que comprou essas flores, dizia que as de plástico nunca mofariam e estariam sempre enfeitando nosso lar.

Recordo que recusei tal ideia, porque queria sentir o aroma que flui das flores naturais, ver a essência da necessidade da água, ter o trabalho do zelo diário.Entretanto, você preferiu o cheiro sintético, frio e estático das horas congeladas pelo ponteiro do tempo-vida que essas flores emitiam.Comunico que infelizmente elas faleceram com o tempo e a corrosão do oxigênio.

Tornaram-se canteiros de moscas moribundas. Faleceu sem mostrar a evaporação da vida consumida. Ah minha querida, a vida é composta dessas fatalidades cotidianas!Certamente essas flores ficarão na sua memória. Mas com certeza lembrará muito mais daquela singela flor de verdade que arranquei do seu habitat quando viajamos naquela estrada sem curva. Recordo-me que o sol de dezembro castigava a coitada sem ofertar sombra alguma.Eu, carregando-a nas mãos entreguei a você.

E você num suspiro desprendeu sua vida do corpo, seus olhos lacrimejaram e regaram as folhagens da flor. Minha querida, Elnora, certamente isso é tão fresco em sua memória quanto aquelas flores de plástico. Hoje há tulipas no lugar, deveria estar aqui pra sentir o cheiro real delas.
Texto de: Alan Félix
Salvador - BA
22 anos

4 comentários:

Francimare Araújo disse...

Eu sou apaixonada pelas cartas de Alan, ele é divino nas palavras.

D i c a disse...

Eu já li tantas vezes essa carta que se duvidar sei cada linha sem precisar ler..
Adoro os textos-poemas eróticos do Alan, e é bom ler o historiador por aqui também.

Pâmela Marques disse...

O Alan é bem doce. Adoro o que ele escreve.

Alan Félix disse...

Obrigado.

Me esforço a cada dia em escrever melhor o mundo.